As carapuças que a gente veste

Há meses considero falar sobre esse tema. Comecei a escrever sobre isso na minha página pessoal do facebook inúmeras vezes, e sempre acabo apagando meu progresso, sem nem salvar um rascunho, pra não entrar em tentação de terminar o que comecei e postar. Detesto indiretas de redes sociais, e não gostaria que minha postagem fosse entendida como uma. Com a reformulação do blog e com várias outras questões pessoais que eu tenho pesado ao longo dos últimos anos, no entanto, não dava mais pra fugir do assunto: todo mundo veste uma carapuça (ou várias) ao longo da vida. E tudo bem!

Sempre usei minhas redes sociais como forma de entretenimento. Ao contrário dos meus colegas de trabalho e de faculdade, me recusava a postar sobre assuntos sérios, como política, religião, convicções pessoais, porque sempre pensei que era inútil debater na internet. De certo modo, continuo achando a mesma coisa, mas meu envolvimento cada vez maior com as causas em que acredito e pelas quais luto fez com que eu resolvesse falar sobre elas ali mesmo, no meu facebook, na esperança de abrir diálogos positivos com as pessoas com quem eu me conectava virtualmente. E isso funcionou muito bem enquanto eu falava e as discussões aconteciam: quem concordava com meu ponto de vista trazia ainda mais argumentos, e quem discordava trazia novos pontos de vista, muitos dos quais acrescentaram tanto na minha vida que passei a utiliza-los – e a fazer mea culpa das coisas que eu fazia de forma errada e aprendi a não fazer. Quebrei preconceitos próprios e continuo tentando fazer isso todo dia. Fui perdendo o medo de falar sobre os assuntos que me interessavam, por mais polêmicos que fossem, e cada experiência era mais sensacional que a anterior… aí vieram os vestidores de carapuça. No pior sentido possível.

Não vejo problema nenhum em vestir a carapuça de coisas que fazemos bem ou mal. Se fazemos algo bem, excelente! Que continuemos e perpetuemos comportamentos legais. Se fazemos algo que não é bom, é simples: exame de consciência e aprendizado. Ninguém é perfeito e cometer erros é perfeitamente natural do ser humano. Mas não dá pra descontar suas frustrações em outras pessoas. Quantas vezes não li uma postagem no facebook, no instagram, uma matéria de jornal ou revista, uma postagem de blog, que apontasse o dedo bem na minha cara, mostrando que eu não estava fazendo algo legal? Um exemplo bem prático: já achei que postar fotos fazendo pole dancing fosse uma forma de chamar atenção, de aparecer. Felizmente tenho uma amiga sensacional, super bem resolvida com o próprio corpo e com a própria arte que fez vários vídeos praticando essa arte (alô Lenynha, te dedico!) e também textos incríveis, em que ela me deu um tapa de luva: pole não é sobre atrair homem. Não é sobre mim nem ninguém mais. É sobre quem pratica e se sente bem praticando. Fim! Simples, mas eu, na minha imensa ignorância anterior, me sentia no direito de julgar. Aprendi e não tenho vergonha nenhuma de falar sobre isso. Uma pena que, nos últimos tempos, as pessoas tenham vestido carapuças invisíveis com relação ao que eu posto.

A maternidade é um tema novo, mas a gravidez já é um tema em que estou um tanto mais calejada: passei os nove meses de espera pelo meu filho pesquisando e estudando, afinal, queria trazê-lo ao mundo da forma mais respeitosa possível e sabia muito bem como era o sistema obstétrico no Brasil – mas isso é assunto pra outro post. Antes mesmo de conseguir o que queria (mas principalmente depois de conseguir), parir meu filho de forma respeitosa e natural, passei a advogar muito pelo direito das mulheres a passar por essa experiência. Se elas quisessem, é claro. Sendo feminista, não poderia argumentar contra o direito de escolha de cada mulher, afinal o parto, essa experiência tão visceral, intensa e transformadora, deve ser uma escolha. Se uma mulher escolhe passar pela cirugia cesariana depois de se informar e estudar, então ela pode e deve conseguir seu desejo, da forma mais respeitosa possível. Não há mal algum nisso. Mas minha defesa é pelo direito ao parto natural – o que significa que, às vezes, compartilho os mitos que médicos usam para induzir as pacientes que desejam um parto normal ou natural a uma cesariana. Daí que nos últimos tempos, várias pessoas têm tomado essas informações como um ataque pessoal às suas histórias de início da maternidade, e isso me deprime.

Como disse dois parágrafos acima, não dá pra descontar suas frustrações nos outros. Cada um vive a própria história, Deus sabe que eu vivo a minha e ela não é um conto de fadas. Maternar não é fácil, e não tem nada mais chato do que alguém querer interferir na maternagem alheia. Eu, particularmente, odeio que interfiram na minha. Mas quando leio sobre práticas de maternagem ou de gravidez alheias eu não me sinto mal ou ofendida! Cada um faz as coisas como quer e pronto. Eu mesma não quis fazer ensaio de gestante, por mil motivos, mas o principal é bem simples: não tem nada a ver comigo. Não me sinto ofendida quando me dizem que eu deveria ter feito ou que vou sentir falta. Me sinto um tanto frustrada por não confiarem na minha própria cabeça e no meu auto conhecimento, mas, de novo, isso é assunto pra outra postagem. Pra que, então, se ofender com algo que não tem intenção nenhuma de ser uma indireta?

Carapuças são importantes. Vestir uma carapuça significa que temos algo para refletir. Mas por favor, minha gente, vamos aprender a interpretar textos. Leiam duas, três, quatro, mil vezes se necessário, e não pulem pra conclusões precipitadas. E no que se trata de mim, fiquem tranquilos: não dou indiretas. Mesmo este texto não é uma indireta, é apenas um desabafo usando situações reais para ilustrá-lo. Fica meu apelo ao mundo: interpretação de texto faz bem e conserva nossa saúde. Deixem pra se ofender quando for caso de se ofender, e não acusem as pessoas de fazer coisas que não estão fazendo. Quanto a mim, sigo dando minha opinião nos assuntos que me interessam, ainda que eles possam ser problemáticos, afinal, eu cresci (e cresço) muito com as discussões que surgem, e aprendizagem, não importa de qual tipo, é sempre importante. Aprendamos!

2 Comments

  1. Oi, Nina.
    Adorei a sua postagem de hoje e embora eu não tenha filhos (e nem sei se pretendo ter), pensei em todos os tipos de postagens que vemos na internet!!
    Há anos aprendi a receita para a minha felicidade: não posso e não tenho o direito de querer mudar os outros, só posso mudar a forma como eu encaro o comportamento deles!! Rs… Então, sempre que eu leio alguma coisa que não concordo, que me irrita, que me incomoda, eu simplesmente fecho a tela e vou cuidar da minha vida!!
    Acho impressionante como existe tanto desocupado no mundo que se acha valente atrás de um teclado e que insiste em comentar em tudo o que lê, em arrumar briga, em criticar os outros… Não tenho paciência para esse tipo de gente!! Rs…
    Se é para discutir, pensar a respeito e formar opinião, prefiro uma mesa de bar!!! Rs…
    beijos
    Camis

    • Oi Camis!

      Nem queria falar de maternidade de novo tão cedo, mas serviu pra ilustrar o problema que eu passo com essas pessoas doídas e frustradas com a própria vida. Quer dizer que se eu consigo algo na minha vida não posso ficar feliz ou celebrar? Devo engolir minha alegria pq alguém não alcançou o mesmo? É o mesmo que não poder ficar feliz de passar no vestibular pq outras pessoas não conseguiram, oras. Junta-se a isso todas as vezes que as pessoas se doem por vários assuntos e essa nova fase do blog e aqui estou eu!

      Tenho esperança de que o mundo evolua e as pessoas aprendam a interpretar textos pq olha, tá difícil!

      Um beijão!

Tem algo a acrescentar?