Dois Irmãos – Milton Hatoum

Oi! Hoje finalmente acordei com disposição para falar de um livro que mexeu muito comigo alguns anos atrás, quando o li para a faculdade. Digo finalmente porque é uma história complexa dentro de sua simplicidade e achei que precisava estar especialmente inspirada para falar dele. Vamos de “Dois Irmãos”.

Capa da Edição de Bolso, que é a que eu tenho em casa.

“Dois Irmãos” conta a história da família dos imigrantes libaneses Zana e Halim, composta pelos filhos gêmeos, Yaqub e Omar (os Irmãos do título) e a filha Rânia. O casal sai do Líbano e vai morar em Manaus nos anos 20, durante a juventude, e a história se passa no período anterior e também durante a Ditadura Militar. Além dos cinco, mora na casa, também, Domingas, empregada da família que tem uma relação mais familiar que empregatícia com a família libanesa. Yaqub nasceu alguns minutos antes de Omar, que acabou sendo o Caçula (esse é seu apelido, por isso a maiúscula) e, devido a uma doença na infância, passou a ser o preferido da mãe. Essa relação de preferência coloca toda a história em movimento e motiva os conflitos principais, pois Yaqub e Omar se odeiam a ponto de brigar toda hora. A preferência de Zana por Omar também causa raiva e ciúme ao marido, Halim, e incentiva Rânia a tomar partido da mãe e sempre defender Omar. Depois de uma briga particularmente destrutiva, em que Omar fere Yaqub, este último é mandado para o Líbano para estudar, e o primeiro fica sob os cuidados da mãe. Quando volta, anos depois, Yaqub é um matemático de sucesso, enquanto o irmão é o típico playboy desocupado que depende dos pais. A volta de Yaqub reacende conflitos adormecidos, e cria novos, ameaçando a suposta paz da família.

Bom, o livro é bem complexo, apesar de a história parecer simples. Hatoum tratou de vários temas ao longo do livro, usando esse núcleo familiar que parece tão simples à primeira vista. Um deles é a condição de estrangeiro, e como é sentir-se parte (ou não) de um país, mostrando a perspectiva dos libaneses que moram no norte – o próprio Hatoum é descendente de libaneses, o que dá a sua narrativa um tom bem realista. Outro tema abordado é a relação entre a mãe e os filhos: Zana e Omar têm uma relação tão íntima que chega a ser incômoda, é quase incestuosa. É, na verdade, um complexo de Édipo moderno, e não dá pra deixar de sentir um certo nervosismo com a situação, é bem estranha. Em compensação, a relação de Zana e Yaqub é distante, apesar de ele ser o filho que faz tudo para melhorar na vida e ser alguém. A empregada da casa, Domingas, desempenha um papel muito importante na história, e passa a ser parte de (mais) um conflito entre os irmãos, além de ser uma das personagens mais interessantes da história.

A história é narrada por um narrador que faz parte dos acontecimentos, mas que só vai ser revelado um pouco mais pra frente no livro, e como o narrador é um dos (outros) conflitos dos irmãos, não vou contar quem é, ia estragar a surpresa. Ele vai narrando em forma de reminiscências: à medida que vai lembrando dos fatos, vai contando, o que faz toda a diferença. Gostei de todas as personagens, até das que gostei de detestar. Hatoum publicou dois livros, esse foi o segundo, e eu não li o primeiro, então não conhecia seu estilo de escrita, mas achei que ele constrói pessoas e situações muito interessantes. Zana foi a personagem mais difícil, e apesar de eu ficar com asco dela e de Omar, os dois me fascinavam, ao mesmo tempo (mórbido, eu sei). Domingas e Yaqub foram minhas personagens preferidas, e acho que Rânia foi a mais chatinha, que eu poderia viver sem.

Pra resumir: o livro é excelente, cheio de temas importantes e interessantes, além de ser muito bem escrito. A história te prende do início ao fim, e tem um mistério digno de “Capitu traiu Bentinho?”, que eu, até agora, não consegui desvendar! Recomendo, recomendo, recomendo! Não à toa o livro ganhou o Prêmio Jabuti em 2001! Um dos melhores livros que eu li nos últimos anos (e, mesmo com toda a inspiração, acho que essa resenha não ficou à altura!).

Espero que tenham gostado! Boa semana e até a próxima!


4 thoughts on “Dois Irmãos – Milton Hatoum

  1. Gostei! Entrou para minha lista de livros a serem lidos! hehe

    Nossa, Marina, estou lendo um livro que tem uma história interessante, apesar de muito simplista, mas a escrita é péssima! Vários erros ortográficos e gramaticais! Não sei como alguém tem coragem de publicar algo assim, sem uma revisão! Estou até pensando em mandar um email para a editora… kkkk

    beijos

    • Leia mesmo, Vivian, você vai gostar!

      E que livro é esse? E que editora? Tem algumas que eu até fujo, de tanto problema que as traduções costumam ter, infelizmente! Tá faltando vergonha na cara pra contratar revisor, não é? kkk!

      Beijos!

  2. O livro é “Nos seus olhos”, de Gabriela Marques.
    Comprei na Amazon baratinho quando fui comprar Guerra e Paz. Fui olhar agora no site, parece que nem tem editora! kkkkkk Ou a Amazon também é editora?? hehe
    E lá classifica como Romance Erótico. Mas é tão light… kkkk
    Enfim, vou terminar de ler. Mas acho um absurdo publicarem algo sem revisão! Ou mesmo um autor se dignar a escrever mal desse jeito!

    beijos

  3. Pingback: Eles Eram Muitos Cavalos - Luiz Ruffato - O Mundo da Marina

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