Os Bórgias (The Family) – Mario Puzo

Olá! Acordei num humor intempestivo, então acho que é apropriado falar de um livro cheio de pessoas e reações intempestivas. Voltando aos mafiosos italianos – agora disfarçados de bons religiosos – “Os Bórgias” é o livro de hoje, pra falar mais um pouco de Mario Puzo.

Rodrigo Bórgia é um homem ambicioso, cardeal da Igreja Católica em sua época mais corrupta. Ele tem quatro filhos ilegítimos, César, Lucrécia, Jofre e Juan, sendo que os dois primeiros, além de serem seus preferidos – Lucrécia ganha de César; é, definitivamente, a preferida do pai – são os as peças mais importantes para ajudar Rodrigo a se manter no papado, depois de ganhar o cargo em 1492. A história segue Rodrigo desde seus tempos de cardeal e suas tramas para se tornar papa até sua luta para permanecer no poder após conseguir o cargo mais importante da Igreja Católica. Jogando seus filhos César e Lucrécia em uma relação incestuosa, tramando casamentos para a filha – que visam assegurar sua posição – e fazendo César pender entre cardeal e chefe das forças armadas papais, Rodrigo não mede esforços para assegurar sua permanência – e de sua família – no cargo de maior importância da época, mesmo que, para isso, tenha que matar, estuprar e destruir quem se ponha em seu caminho.

Bom, é importante esclarecer um ponto sobre este livro: Puzo morreu antes de completá-lo, então ele foi terminado por sua namorada, Carol Gino. Não se sabe em que ponto ela pegou o manuscrito para terminar, mas a impressão que eu tive é que deve ter sido mais para o final, já que foi quando eu senti uma diferença na escrita. A história é ótima, as personagens são incríveis, mas dá pra perceber que é um livro escrito “a quatro mãos”, e isso, infelizmente, diminuiu um pouco a magia da escrita de Puzo – que eu tanto gostei em “O Poderoso Chefão”. A história por si só é interessante, o retrato da “primeira família do crime”, mas o mais fascinante mesmo são as personagens – será que vou achar isso em todas as histórias de Puzo? Vediamo

Diferentemente da família Corleone, aqui não entramos tanto na mente dos Bórgias. Sim, dá pra perceber as motivações por trás de cada decisão tomada por Rodrigo Bórgia, até porque Puzo visivelmente tentou colocar alguma humanidade em personagens que, perdidas na história e afogadas em suas péssimas famas, são sempre mal vistas, mas a verdade é que com os Corleone podemos nos sentir parte da história, cada hora vivendo como uma personagem diferente, e aqui isso não acontece. Rodrigo Bórgia é um homem, por falta de palavra melhor, sem-noção. Ele manipula, mente, mantém relações sexuais mesmo sendo um religioso, tem filhos, faz tudo o que não deve e ainda crê que será perdoado pelo simples fato de ser um homem da igreja – mais especificadamente, um papa. César foi, para mim, o Gollum dessa história: completamente manipulado pelo poder do pai e pelo amor doentio que desenvolve pela irmã, Lucrécia, cuja virgindade tira quando ela tem apenas 13 anos, ele depende tanto das decisões do pai e dos caprichos da irmã que Smeagol parecia menos dependente do Um Anel em comparação! Lucrécia é a personagem que menos bate com suas descrições históricas: parece ser uma menina ingênua que simplesmente acredita em tudo que o pai diz, e que só vai se livrar disso com a morte do genitor.

O conjunto da obra é muito bom, mas fiquei com a sensação de que os livros escritos só por ele devem ser melhores que esse, que teve colaboração para a conclusão – mesmo que eu só tenha lido dois livros dele até agora. Ainda assim gostei bastante da história de “Os Bórgias” e recomendo! Sei que originou uma série de TV, mas ainda não assisti. Aliás, se você ler e se interessar mais pela família Bórgia, diversas obras sobre eles foram escritas, incluindo quadrinhos do Milo Manara.

Espero que tenham gostado! Boa semana e até a próxima!

P.S.: Um parabéns para mim, que terminei meu curso de italiano! =)


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