Tempos Difíceis (Hard Times) – Charles Dickens

Oi! Brasília está cheia de nuvens e de calor, mas a chuva ainda não veio. Como uma pessoa que detesta calor, estou sofrendo um bocado esperando por ela – que geralmente cai no dia do meu aniversário, um presente divino, certamente. Nessa de esperar e sofrer escolhi o livro de hoje, de título tão apropriado pro momento. É dia de “Tempos Difíceis” – outra herança da época da faculdade.

hardtimes

“Thomas Gradgrind é um utilitário, que acredita que fatos e dinheiro são mais importantes do que sentimentos e imaginação. Acompanhando a trajetória de Thomas, “um homem de fatos e cálculos”, e sua família, o livro satiriza os movimentos iluminista e positivista e triunfa ao descrever quase que de forma caricatural a sociedade industrial, transformando a própria estrutura do romance numa argumentação antiliberal. Por meio de diversas alegorias, como a escola da cidade, a fábrica e suas chaminés, a trupe circense do Sr. Sleary e a oposição entre a casa do burguês Josiah Bounderby e a de seu funcionário Stephen Blackpool, o resultado é uma crítica à mentalidade capitalista e à exploração da força de trabalho, imposições que Dickens alertava estarem destruindo a criatividade humana e a alegria. Quando Sissy Jupe, filha de artistas circences, é abandonada, o Sr. Gradgrind a leva para sua casa, buscando educá-la junto com seus outros filhos, Luísa e Tom. Os anos passam e a família Gradgrind encontra dificuldades: Luísa é prisioneira de um casamento sem amor, Tom tem problemas no trabalho e Sissy não parece ter mudado com os anos. Seria a educação dada pelo Sr. Gradgrind o problema ou a solução?”

Como eu contei logo lá em cima, este livro foi passado como leitura obrigatória de uma das minhas matérias da faculdade. Comecei a lê-lo e, nas discussões de sala, a detestá-lo. Não pelo livro em si, mas porque minha professora era uma pessoa muito difícil, que já me tinha feito ter raiva de outras histórias – aliás, a maioria das vezes que eu menciono ter deixado um livro de lado na faculdade para depois lê-lo foi por causa das mesmas professoras. Ano passado o inseri na lista deste ano e finalmente terminei a história, de que, aliás, gostei muito.

As várias alegorias principais da história já foram mencionadas ali na sinopse, então queria só falar de um aspecto da narrativa que me chamou a atenção, em especial, por causa da minha formação e da profissão que exerço no momento (sou professora de português para estrangeiros e de inglês, por formação, e dou aula de inglês num grande Centro Binacional); Dickens acabou por, talvez sem perceber, tratar do delicado tema da educação. O viés abordado no livro é de uma educação seca, sem nenhum tipo de interesse na imaginação, na criatividade e na inteligência emocional, o que se assemelha muito ao tipo de educação que tem sido dada nas escolas – pelo menos é o que eu noto em Brasília. Há um desespero tão grande pela aprovação nas melhores universidades que toda a infância das crianças já começa a ser prejudicada e a desaparecer lentamente, o que, como professora e como ser humano, me alarma e preocupa. O que este livro demonstra – e eu tenho visto acontecer lentamente no meu dia a dia – é que quando se suprime demais a infância e o momento de brincar das crianças, algo vai acontecer no futuro para cobrar o preço, e as consequências serão pesadas.

As personagens bem reais e bem caricatas ao mesmo tempo, as várias – inteligentíssimas – críticas e alegorias e a narrativa fácil de acompanhar se combinaram para tornar esse livro um clássico, e do tipo que é sempre atual. Um dos melhores livros que eu já li, mas que não é do tipo feliz e animado, já aviso. Recomendo fortemente, para todos e sem restrições! Todo grupo pode se beneficiar de algo com essa leitura – que devia ser obrigatória para todos os níveis de ensino, em maior ou menor grau.

Espero que tenham gostado! Bom resto de semana para todos nós e até a próxima!


2 thoughts on “Tempos Difíceis (Hard Times) – Charles Dickens

  1. Oi, Nina.
    Esse não é o tipo de livro que eu curto, mas gostei das suas análises.
    Infelizmente a situação da educação aqui em São Paulo é ainda pior, simplesmente porque ela é nula. Esse papo de “não podemos corrigir as crianças para elas não se sentirem mal” está virando uma desculpa para professor não trabalhar e as crianças chegam ao final do ensino fundamental completamente analfabetas…
    É uma pena!
    Beijos
    Camis

    • Camis, acho isso complicado. Sou professora, e posso te dizer que não somos nós que não queremos educar e corrigir, são os pais que acham que somos vilões se o fazemos. Professores são parte de uma das classes mais injustiçadas no mundo, e é triste quando as pessoas assumem que o problema da educação está conosco – não podemos colocar capa e salvar o mundo sozinhos, mas fazemos nossa parte, ainda que tenhamos vários fatores dificultando nosso trabalho!

      É, é mesmo uma pena, mas não são os professores que não querem trabalhar – é a sociedade que acha que somos preguiçosos, e que nos diz “você trabalha ou só dá aula” (como se fosse pouco!).

      Beijos.

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